São José do Rio Preto, 10 de setembro de 2006
Fabiano Ferreira
Desde que começamos a nos entender como pessoas, volta e meia alguns questionamentos nos fazem pensar sobre o sentido de viver. Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Sabemos que as respostas não são tão fáceis ou talvez nem existam na clareza que esperamos. Mas sabemos também que é a busca por estas informações que nos faz seguir adiante, que nos faz pensar, sonhar, planejar e executar. Eis o mistério da vida. Se as respostas viessem prontas, tudo ficaria mais sem graça, sem cor. Buscar um sentido para a vida é peça fundamental no jogo que travamos diariamente em casa, no trabalho, na sociedade. Quem perde essa perspectiva cai nas armadilhas do destino e não se move em busca da felicidade. Está aí uma explicação fácil, porém extremamente convincente: o sentido da vida é ser feliz. Estamos aqui para ser felizes, para viver plenamente, para crescer, para evoluir. para ampliar nossa consciência sobre o universo. Se esta não é nossa tarefa, a existência não faz muito sentido.
A esta altura o leitor deve estar se perguntando: como fazer definições simplistas se o mundo é mais complexo do que se imagina? Ou seja, um cientista, por exemplo, dá uma explicação bem diferente para o sentido da vida do que um religioso. Um adolescente terá pensamentos totalmente diferentes deste sentido do que seu avô, de outra geração. A um consenso provavelmente nunca se chegará. Até porque o sentido da vida pode ser entendido como algo muito particular. Cada um de nós imprime um significado ao fato de estarmos aqui. Alguns tornam a vida mais grandiosa, mais compensadora. Outros se abandonam e vivem “ao léo”, se aproveitando somente das migalhas, sem tomar as rédeas do próprio destino para construir uma história de sucesso.
Diferentes visões
Profissionais de diferentes áreas dão visões sobre o sentido da vida, de acordo com sua formação e suas experiências. A consultora mineira Eliana Barbosa, autora do livro “Acordando para Vida”, acredita que o grande sentido da vida é buscar o crescimento – pessoal, espiritual e profissional – e, com ele, colaborar para melhorar o mundo em que vivemos. “Ninguém nasceu para ser um enfeite ou um turista. Cada vida neste planeta tem a sua missão e esta missão com certeza é fazer uma diferença positiva na vida das outras pessoas. Quantas pessoas simples, anônimas para nós, estão neste momento, com a sua generosidade, melhorando a vida de outras?”, questiona.
Na opinião dela, não é preciso ser importante aos olhos do mundo para fazer a diferença. A importância de uma pessoa está em suas intenções, naquilo que passa dentro dela e não no que ela aparenta. “Acredito que a felicidade verdadeira consiste na descoberta do sentido de nossas vidas. É nessa hora que tudo ganha cor e, finalmente, acordamos para a vida!”, continua. Nosso objetivo de viver deve ser o de crescer e melhorar continuamente em todos os aspectos do viver. Devemos buscar hoje ser melhores do que ontem e amanhã, melhores do que hoje, dia após dia. Ou seja, ter ambição (no bom sentido) é muito saudável porque nos motiva a buscar caminhos mais promissores.
Para Eliana, inevitavelmente, o sentido da vida passa por explicações religiosas. “Como filhos de Deus, e herdeiros de sua Essência Divina, somos criadores também e temos de assumir esta missão, criando condições melhores de vida para nós mesmos e, conseqüentemente, para todos que nos cercam. Quantas vezes nos pegamos questionando sobre nossas ações e do porquê praticá-las? Tá certo que nem sempre acertamos (talvez mais erramos do que acertamos). Mas a intenção, mesmo se estivermos envoltos na ignorância e no egoísmo, é fazer a coisa certa, é dar sentido para tudo. Caso contrário, o que justifica nossa passagem por aqui? É de se pensar.
Pelo amor ou pela dor, ache sentido para sua existência
Há pessoas que só começam a perceber o verdadeiro sentido da vida quando passam por uma tragédia, envolvendo morte, doença grave ou acidente. São situações extremas, que colocam todos os limites à prova e fazem com que as pessoas passem por um profundo exame de consciência sobre seus atos. A ordem natural é mudar o rumo e fazer outras escolhas, embora algumas pessoas teimem em remar para a mesma direção. Mas diante dessa dinâmica cabe uma reflexão: em que outros momentos poderíamos aproveitar para começar a enxergar esse sentido a não ser pela dor?
Para a escritora Eliana Barbosa, muita gente só diz ter “nascido de novo” depois de ter se curado de um câncer ou sobrevivido a um acidente. “Geralmente, são pessoas resistentes às mudanças, que se apegam muito ao que deu certo no passado e insistem em uma estabilidade na vida, que na verdade não existe”, observa. Há um ditado que diz o seguinte: “Para acordar uma gazela, basta um raio de sol, mas para acordar uma pedra, é preciso uma dinamite!”. É hora de perguntar: quem você prefere ser, uma gazela ou uma pedra? Aprender pelo amor ou pela dor?
A melhor forma de encontrarmos o sentido de nossas vidas, sem que precisemos da dor, é nos conscientizando de que dentro de cada um de nós há um tesouro de recursos, dons, habilidades e talentos que nos permitem assumir nossas próprias escolhas e nos leva a ocupar o nosso lugar de cidadãos do Planeta Terra. Quem não desperta para esta consciência dificilmente verá sentido nos acontecimentos. Faz-se necessário conhecer-se melhor, saber dos próprios limites, dos anseios, enfim, ter certo domínio sobre os atos para que os resultados sejam positivos e tenham nexo.
Mudança interior
Mas o que dizer para aquelas pessoas que afirmam que sua vida não tem sentido? O que elas podem começar a fazer para mudar essa visão? “Minha sugestão é que procurem desenvolver a religiosidade em suas vidas, seja em que religião for. Só o fato de se sentirem guiadas por uma força superior fica mais fácil a busca do sentido da vida. Depois, que busquem cuidar de si mesmas com o mesmo carinho que cuidam dos seus entes mais amados, valorizando-se e desenvolvendo a autoconfiança”, diz Eliana Barbosa.
Agindo desse modo, a pessoa pode começar a olhar ao redor e se preparar para servir, porque a vida ganha cor e sabor quando nos descobrimos úteis e importantes para os outros. É importante também que as pessoas observem se não estão sofrendo os sintomas da depressão e, em caso de dúvidas, que procurem recursos médicos, porque este problema leva muitos a perder o sentido da vida, e aí o grande perigo são as tentativas de suicídio.
Buscar a verdade sempre
Na visão espírita, a vida só tem sentido verdadeiro e profundo se a concebermos como um “continuum”, quer dizer, se ela for eterna. Para os seguidores da doutrina de Allan Kardec, a vida é concebida como propriedade do espírito imortal. “Tanto faz viver na crosta terrestre ou em outras dimensões invisíveis, pois mudamos tão somente as roupagens de apresentação em um ou outro plano”, explica Marlene Nobre, da Ame (Associação Médico-Espírita do Brasil). De acordo com ela, seja qual for a esfera em que estejamos, o verdadeiro sentido da vida é a busca da verdade, a qual nos libertará do egoísmo, iluminando de amor o nosso coração.
Objetivo de viver
Para o espiritismo, o espírito tem de passar pela roda das encarnações sucessivas a fim de evoluir, tanto em sentimento quanto em intelecto. Em tudo que fazemos, devemos ter a perspectiva de evoluir espiritualmente. E a alma não evolui sem adquirir as virtudes fundamentais do coração. “Todo nosso exercício na existência deve se concentrar, portanto, em ter paciência, tolerar, perdoar e amar”, diz Marlene. Para a médica, todos trazemos um traço muito forte em nossa alma: o de nossa união com o Criador. Desse modo, intuitivamente, o sentido da vida tem forte ligação com a destinação superior para a qual o Ser Supremo nos criou. “Não é por outra razão que a espiritualidade está latente em nós, independentemente de termos ou não uma religião formal”, diz,
Sem ansiedade
Para dar mais sentido à vida uma dica é olhar o mundo sem o peso da ansiedade. Todos os erros existentes nele são de natureza humana. “Não melhoraremos o planeta maravilhoso que nos foi oferecido por Deus como moradia sem nos esforçarmos para mudar interiormente. Na vida, só recebemos de volta o que colocamos em movimento. Um ótimo começo é parar de reclamar e trabalhar com sinceridade para adquirir mais paciência, tolerância e amor”, reforça a espírita. Uma das tarefas que estão diretamente ligadas à nossa existência é trabalhar nossos sentimentos e ações a fim de dar um sentido ao que fazemos neste mundo. Não se pode entregar tudo nas mãos do destino, do mesmo jeito que não dá para contar somente com o acaso para esperar que o melhor aconteça. Intervir com nossas próprias energias pode fazer a diferença.
Aproveite mais
:: Apostar no autoconhecimento faz com que a vida tenha mais sentido: leia, reflita e coloque os aprendizados em prática
:: Encontre prazer naquilo que faz, mesmo não sendo a atividade dos seus sonhos; pense nos benefícios que tem
:: Dê atenção à espiritualidade, independentemente da religião: a crença em um Ser Superior facilita dar mais sentido à vida
:: Valorize mais os sentimentos do que os objetos. Os primeiros ficam, os demais se perdem com o tempo
:: Preste mais atenção na natureza e nas pessoas com quem convive: com certeza este movimento fará com que a vida tenha mais sentido
:: Mude sempre: não faz sentido manter-se radical
:: Aprenda sempre e seja democrático, assim a vida se torna mais fácil
O que você pretende levar?
O sentido da vida não está nos objetos. O sentido da vida não está nas pessoas. O sentido da vida, como diz a própria expressão, está nos sentimentos. Está também nos valores, na força das ações que constituem nossos relacionamentos, nossos laços. Assim, de nada adianta procurar um sentido externo para preencher um espaço que só pode mesmo ser ocupado pelo abstrato, por algo que não se explica, que não se pode traduzir ao pé da letra. Neste sentido, Marlene Nobre, da Ame-Brasil, diz que só possuímos como patrimônio verdadeiro o que podemos levar desta vida.
E na passagem para “o outro lado”, não podemos transportar riquezas, propriedades, jóias, títulos, enfim, coisas perecíveis e supérfluas. “Se começarmos a dar valor ao que é eterno, como as amizades, as virtudes e as boas ações, enxergaremos o verdadeiro sentido da vida, sem necessidade da dor”, diz. Para isso, é preciso dar valor ao que temos à nossa volta. É de extrema importância ter um lar e uma família, por exemplo. O ideal é começar por amar aos que convivem conosco, valorizando nos relacionamentos o desenvolvimento de nossas qualidades morais e espirituais.