O poder de se perdoar

Eliana Barbosa

Cláudio e sua esposa Marisa voltavam do trabalho, no ônibus da Indústria em que eram funcionários. Eram casados há 11 anos, e há dois dias a esposa  de Cláudio começou neste novo emprego, como auxiliar de contabilidade, em um cargo de muita responsabilidade na Empresa. Mas, como todo início de função, Marisa estava bem assustada, porque sabia que teria muito que aprender e seu chefe era temido por todos,  pela sua intolerância e exigência.

- Cláudio, estou com medo..., estou quase desistindo... Hoje cometi um erro grave: joguei fora, misturado com outros papéis, um documento importante e, na hora, quando percebi a minha burrice, não soube o que fazer – disse Marisa, com voz chorosa e lágrimas nos olhos.

- Calma, querida. Ninguém nasce sabendo e você só tem dois dias de trabalho lá. Errar faz parte do processo de aprender. Seria muita arrogância da sua parte querer saber tudo de uma só vez... isso é perfeccionismo, Marisa – disse o marido, com a sua vasta experiência como auxiliar no departamento pessoal.

Cláudio, por sua convivência direta com a área de RH, era a pessoa certa para orientar a esposa neste momento. E, interessado, perguntou a ela:
-   E aí, Marisa, o que você fez quando percebeu o seu erro?

- Ah, Cláudio, quis me esconder debaixo da mesa, chorar, sair correndo, mas não podia agir assim, não é? Afinal, isso é comportamento de criança mimada. Então, chamei o chefe e confessei o meu deslize, pedindo mil desculpas e me propondo a remexer em todo o lixo e encontrar o tal documento, cheia de vergonha e culpa...

Mas, nessa hora, ele me surpreendeu, porque não brigou comigo. Disse que “tudo nessa vida tem conserto” e que eu providenciasse, rapidamente, o pedido de segunda via deste documento.

- Puxa, Marisa, até que pelo temperamento que ele tem, ele foi tolerante com você, querida. Mas eu sei por quê: porque você agiu com humildade, assumiu o seu erro e não ficou inventando pretextos para o que aconteceu. Todo mundo gosta de gente sincera e transparente. No nosso departamento de pessoal, em nossos treinamentos, sempre enfatizamos aos colaboradores a importância de conhecermos nossas limitações e assumirmos as nossas dificuldades, para, com isso, buscarmos o crescimento. Tem pessoas que fazem de conta que são o máximo, que vivem maravilhosamente bem em família, que sabem tudo no trabalho, mas se olharmos a fundo, estão se escondendo de si mesmas, estão jogando “suas sujeiras para debaixo do tapete”.

-  Pois é, Cláudio, depois do susto, fiquei mais calma quando assumi o meu erro e me propus consertá-lo. Ao invés de ficar humilhada, me senti mais fortalecida e, é claro, aprendi uma grande lição: nunca jogar fora aquilo que a gente não sabe se é lixo realmente. Mas, mesmo assim, estou com medo de ser dispensada... estou insegura, entende? Eu não podia ter errado assim, logo no período de experiência... – disse Marisa, com uma certa raiva da sua falta de atenção.

- Querida, sentir culpa ou raiva de si mesma não vai adiantar nada, viu? Aliás, só vai enfraquecer a sua auto-estima. Portanto, perdoe-se porque o que você fez não foi intencional e agora, sabendo de tudo o que aprendeu com esta lição, com certeza você não errará mais nesse aspecto. Pare de querer ser a “maioral”, porque todo mundo erra e fracassa. É claro que agora você vai ficar mais cuidadosa, porque é muito difícil uma segunda chance aqui na Empresa. A filosofia daqui, eu já lhe contei, é que um serviço satisfatório vale muito pouco, porque satisfatório é o mesmo que mediano e mediano é o mesmo que medíocre – disse o marido, bem sério.

- Nossa, Cláudio, que rigorosos eles são, hein?

- Sim, querida. As empresas, no mundo moderno, buscam pessoas que querem aprender e crescer cada vez mais, que sejam descomplicadas com suas emoções e isso inclui que elas devem lutar para se verem livres das mágoas, das culpas e dos medos que são os grandes entraves do sucesso. Só sobrevivem hoje, no mundo profissional, aqueles que buscam, incessantemente, novos desafios e a excelência! – completou o marido, empolgado com este assunto.  - O mundo não tem espaço mais para quem não sabe se perdoar e perdoar os outros, porque são pessoas que se cobram e julgam demais.

- É verdade, meu bem. Outro dia eu li em uma revista que quem carrega mágoas e culpas não consegue prosperar mesmo, e leva a vida como se tivesse dirigindo olhando pelo retrovisor, ou seja, vivendo do passado – completou Marisa, bem mais aliviada agora.

- Sabe de uma coisa, querida? O segredo do sucesso é saber lidar com os ganhos e as perdas. Como diz o ditado: “Se tiver que perder, ao menos não perca a lição!” – disse o marido, enlaçando carinhosamente a esposa em seus braços.

Moral da história: Errar todos nós erramos, mais cedo ou mais tarde. O grandioso é você reconhecer os próprios deslizes e ter a humildade de se desculpar com aqueles a quem causou transtornos, além de se perdoar também. O que você fez de censurável faz parte do seu passado, que não pode ser mudado. Mas o que realmente importa é que, hoje, você não cometeria mais os mesmos erros e isso demonstra que, agora, você é muito melhor do que foi no passado. Portanto, perdoe-se e tire lições dos seus erros, e mais ainda, ensine ao mundo as lições que você aprendeu com as suas experiências negativas. Afinal, você está aqui e agora, neste mundo, para aprender e ensinar, e é esse processo de melhoria contínua que promove desafios e conquistas, dando sentido, colorido e sabor à sua existência.