Eliana Barbosa
- Cláudia, meu amor, o que está acontecendo com você? Tenho percebido que você está muito revoltada com o seu trabalho, ultimamente... por quê? – pergunta Sérgio, marido dela, que trabalha com consultoria comportamental.
- Ah, querido, estou mesmo! Você sabe o “duro” que dou naquela empresa, toda a minha dedicação de anos, mas raramente sou reconhecida por isso e, para piorar a situação, eles acabaram de contratar uma nova funcionária para me ajudar – a Judith -, e ela está fazendo o maior sucesso. Primeiro, porque é bonita, muito educada e depois, demonstra uma autoconfiança que está me deixando estressada, Sérgio! – respondeu Cláudia, bem irritada.
- Querida, não fique brava comigo, mas o que parece é que você está se sentindo insegura... Não fique assim, não, querida! Você tem que ver o lado positivo disso tudo – disse o marido, no seu modo tranqüilo de ser.
- Positivo, Sérgio? Você só pode estar brincando comigo! E se ela tomar o meu lugar? Já pensou nesta possibilidade? – falou Cláudia, com um tom de voz bem alterado.
- Cláudia, se ela tomar o seu lugar é porque ela é mais competente do que você e eu acredito muito no seu potencial, meu amor. E depois, ela está lá para ajudá-la nas suas tarefas e isso é sinal que os seus superiores perceberam que você está sobrecarregada de serviços. É sinal que eles se importam com você e querem vê-la produzindo, sem pressões de trabalho em excesso. Vocês têm que formar uma equipe coesa, senão a produtividade de vocês vai só decair – disse o marido, muito preocupado com os sentimentos negativos da esposa.
- É..., mas eu estou dando um “gelo” nela. Se ela quiser aprender as coisas, que aprenda por si mesma. Não vou criar uma cobra para depois ela me morder – disse Cláudia, cheia de rancor.
- Querida, estou decepcionado com a sua reação! Tenho que dizer isso, porque é com isso que trabalho... Se você continuar agindo assim, a energia à sua volta ficará tão negativa, que realmente ela vai cativar todo mundo e você vai mesmo perder o seu lugar para ela. Você está demonstrando uma inveja que é o caminho mais certo para a infelicidade. As equipes precisam trabalhar com um único objetivo que é o sucesso da Empresa, sem questões pessoais que envolvam falta de autoconfiança, inveja ou ciúmes. Tenho certeza de que se seus patrões perceberem a sua atitude, quem vai sair perdendo será você! – disse Sérgio, bastante chateado com a esposa.
Por outro lado, Judith, a nova funcionária, contratada tão somente pela sua competência na função que já exercia em outra Empresa do mesmo setor, percebeu logo de cara a frieza da colega Cláudia.
Na segunda semana de trabalho na Empresa, Judith foi chamada para uma conversa com a supervisora do Departamento de Recursos Humanos e, depois de pensar muito se deveria fazer isso, contou para ela as primeiras impressões que teve em relação à Cláudia. Disse que foi bem recebida pelos outros funcionários do departamento, mas justamente a colega com quem iria trabalhar em conjunto – Cláudia – não demonstrou simpatia por ela.
- Fique tranqüila, Judith, muitas vezes isso acontece nas equipes, o que é muito triste! – disse Sandra, psicóloga e supervisora de RH. – O que eu posso dizer para você é que este tipo de reação da Cláudia demonstra insegurança da parte dela, medo de que você brilhe mais do que ela. Este é, infelizmente, um sentimento que ainda impera em muitas equipes, que não conseguem colocar o seu compromisso com o crescimento da Empresa em primeiro lugar, deixando as vaidades e os orgulhos só para a vida pessoal.
- Mas, Dra. Sandra, o que eu faço agora? – perguntou Judith, confusa.
- Judith, seja você mesma, agradável com todos, solícita e dinâmica, porque foram estas qualidades que a trouxeram para a nossa Empresa. Uma forma de você quebrar um pouco o “gelo” dela é procurando motivos sinceros para elogiá-la, valorizando-a naquilo que realmente ela sabe fazer bem feito. Quem sente inveja de outra pessoa geralmente é alguém que vive de comparações com os outros e este é um grande erro, porque o certo é a prática da autocomparação, ou seja, a pessoa deve avaliar ou comparar como tem sido o seu próprio crescimento, ao longo do tempo, tanto pessoal quanto profissional. Não fique esperando que ela mude a maneira de ser. Se você quer mudança, quer uma melhora no seu relacionamento com ela, mude você primeiro, mostrando a ela que você quer aprender muito com ela. E mais um detalhe, Judith, que serve para qualquer emprego em que você tiver que trabalhar em equipe: anote tudo o que for mandado para você fazer, principalmente ações que você não concorde com elas, mas que tenha que realizar. Esta é uma forma de se precaver de possíveis traições. Acredito que este não seja o caso da Cláudia, mas é bom ter cuidado... Eis aí algumas dicas para que a sua convivência em equipe possa realmente adquirir a qualidade que a nossa Empresa precisa – disse a especialista, com um ar de preocupação e seriedade.
- É verdade, Dra. Sandra. Ninguém cresce sozinho e, com tato, vou conseguir me aliar a ela e juntas, colaborarmos para que todos os objetivos da nossa Empresa sejam atingidos. Quem mais ganha com o sucesso da Empresa, somos nós, afinal, esta oportunidade de adquirir experiências é única e é nossa!
Momento de reflexão: “Era uma vez uma cobra que começou a perseguir um vaga-lume que só vivia para brilhar. Ele fugia com medo da feroz predadora e a cobra não pensava em desistir. No terceiro dia de fuga, já sem forças, o vaga-lume parou e disse à cobra: ´Posso fazer três perguntas?` A cobra respondeu, irônica: ´Não costumo abrir este precedente para ninguém, mas já que vou comê-lo mesmo, pode perguntar...` ´Pertenço à sua cadeia alimentar?` ´Não!` ´Fiz alguma coisa a você?` ´Não!` ´Então, por que você quer me devorar?` E a cobra respondeu, friamente: ´Porque não suporto ver você brilhar...`”